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Chinelearam comigo

Cada um com suas crenças. Mas hoje passei por uma que nunca achei que fosse possível.

Mas só acontece com quem tá vivo, malandro. Obviamente, tive que escrever a respeito. Ficou meio grande, mas quando mexe com algo tão precioso para nós, não dá para poupar palavras. Lá vai:


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE SER PROFESSOR

No dia 24/06/09 tive uma experiência meio difícil, por se tratar de um choque de concepções, minha e de outrem, que gostaria de compartilhar neste momento.

O glorioso Instituto Estadual de Educação Assis Brasil em decorrência do seu 80º aniversário, dentre tantas atividades, organizou uma gincana, englobando todas as suas turmas, do pré ao ensino médio.

A equipe Vermelha (as outras são Azul e Branco, que simbolizam as cores oficiais do IEEAB) me convidou para ajudar em um das tarefas da gincana, que era de levar um ex-professor da área dos esportes ou artes, para uma visita à escola.

Feliz, pela lembrança que se teve dos 8 anos que lá trabalhei com voleibol masculino, aceitei de pronto. Chegando ao IEEAB, que é como uma casa para mim, fui recepcionado por membros da equipe e assim, levado à Comissão Organizadora da gincana.

Quando lá cheguei, me olharam meio esquisito, como se olha alguém que não era para estar ali e foram me perguntando se eu batia ponto, se era professor do Estado, essas coisas. Respondi que não, que o trabalho que fiz foi voluntário, embora sempre respaldado pela direção da escola.

Daí, a paulada! Disseram-me que eu não poderia ser considerado professor da escola!

Sabe aquela situação onde tu és pego tão de surpresa que fica sem reação e sem saber o que pensar? Bingo.

Não obstante, a reação indignada da professora que me convidou para a tarefa, minha presença foi desqualificada pela Comissão, pois para eles, eu não poderia ser aceito como um ex-professor da escola.

Aquilo bateu mal e bateu muito fundo em mim.

Como fiquei totalmente atônito na hora e milhões de pensamentos me ocorreram ao mesmo tempo, depois de sair dali, resolvi colocar meus sentimentos no papel, para organizá-los de uma forma mais inteligível.

Resolvi analisar os porquês de estar me sentindo tão mal depois do ocorrido. Certamente que, afirmar que nunca fui professor da escola OFICIALMENTE é uma obviedade, que nunca me incomodaria.

Agora, dizer que eu não poderia ser considerado em algum momento, PROFESSOR da escola (pois era apenas o que a tarefa da gincana pedia, não tinha nenhuma especificação sobre concursos públicos e tudo o mais) foi demais pra mim.

Na minha concepção, ser professor de uma escola envolve procurar representá-la nos mais altos princípios éticos, morais e humanísticos. Ser efetivo, contratado ou voluntário, na minha crença, não influi em nada neste espírito que todo professor deve empregar no dia-a-dia das atribuições – todos tem a mesma responsabilidade. Logo, não será um canetaço que dirá se eu sou ou não um verdadeiro professor.

Para mim, ser técnico das equipes de Voleibol Masculino do IEEAB, além de ser uma grande honra, sempre teve uma significação muito pessoal e especial.

Poder dar continuidade ao projeto absolutamente vencedor, tanto no sentido educacional, quanto no esportivo, que foi capitaneado durante muitos anos unicamente pelo professor Élbio Porcellis, foi algo extremamente enriquecedor na minha formação profissional, como na de pessoa.

Toda vez que vesti o abrigo da escola em qualquer evento, sempre senti nas costas o peso de ter que carregar com a máxima dedicação os feitos passados de tantas gerações, que sempre foram motivo de orgulho para a escola.

Talvez por isso, fiquei tão magoado. Na minha cabeça, sempre me considerei – através da forma que trabalhava – um representante desse modelo vitorioso que se construiu no IEEAB, da educação através do esporte.

Ou seja, sempre acreditei ser um professor da escola. Um agente das idéias pedagógicas preconizadas pela Instituição.

Mas, pelo que ouvi hoje, será que deveria ter dito a todos os pais que me confiaram uma parte importantíssima da educação dos seus filhos, “Não sou professor do IEEAB”? Como seria a reação deles?

De repente, os meus alunos. Aqueles que trabalhamos durante anos (alguns da 4ª série até a formatura do EM), desenvolvendo seus corpos, mentes, valores intrínsecos. Será que aceitariam me dar outro tratamento, que não o de “Professor”?

E meus colegas de Educação Física? Que sempre estiveram próximos de mim, tanto companheiros, quanto adversários, que sempre me viram levando o nome do IEEAB para tantas competições dentro e fora do RS (inclui-se aí, duas participações em Jogos Escolares Brasileiros).

Será que em um ínfimo momento, algum deles pensou que aquele cara que estava jogando, lutando e sentindo junto todas as vitórias e derrotas com os alunos do IEEAB, não fosse o professor da escola?

Fico pensando o que eu deveria dizer ao senhor Carlos Pinheiro (Coordenador Geral do Esporte Escolar do RS), que por duas vezes, em 2005 e 2008 me entregou os troféus de Campeão Gaúcho, a honraria máxima que uma equipe escolar pode receber no nosso Estado.

Poderia ser: “Pinheiro, não me entrega este troféu, eu não sou professor da escola, não bato ponto e não sou concursado – embora tenha passado em 2º lugar no último concurso que teve, mas nunca fui nomeado...”

Ainda bem que o Sérgio Cabral, Editor de Esportes do DP, não sabe que não sou professor do IEEAB. Senão, não poderia ter sido entregue a minha pessoa o Prêmio Multiesporte 2005 de Destaque Esportivo em Pelotas, daquele ano, que foi em função do nosso projeto do Vôlei.

Quer dizer, sempre acreditei que meu nome, entre 2001 e 2008, estivesse grandemente ligado ao IEEAB. Não apenas pelos muitíssimos títulos, pois estes são consequência de vários fatores somados, mas sim, pela seriedade, dedicação e respeito que sempre procurei ter como regra de comportamento pessoal e profissional.

Enfim, talvez a frieza do papel me diga que nunca fui professor do IEEAB. Porém, algumas experiências de vida, oportunidades de estudo e profissionais obtidas e exemplos de conduta, as quais pude compartilhar com meus alunos nestes 8 anos, me provam e muito, o contrário.

E, a propósito, se o grande objetivo de TODO professor é fazer alguma diferença, poder contribuir de alguma forma – seja intelectual, física, emocional – com a formação dos seus alunos, eu adoraria que todos os professores do mundo tivessem com os seus, as muitas alegrias que tive com os meus do IEEAB, neste aspecto.

Mas, de qualquer forma, foi bom ter passado por essa experiência meio inusitada hoje, pois esse confronto com uma idéia diferente da que eu possuía, me fez refletir sobre coisas importantes em ser professor.

Às vezes, é bom uma chacoalhada nas idéias. Só não precisava tanto...

Comentários

Paulo Dias disse…
Barbosinha, é impressionante a falta de noção de certas pessoas, eu fiquei indignado, com tamanha falta de caráter desse pessoal do Assis Brasil, instituição pela qual nem preciso dizer o carinho que sinto, e que não são pessoas como esta que mudarão meu pensamento. Mas querido amigo, sempre tento achar um lado positivo em tudo, o que dá pra se tirar disso tudo, é o seguinte: Quem falou isso usou de seu lado competitivo, puro sentimento de pavor em enfrentar o Maior Campeão de Todos os Tempos do Assis Brasil, filho do grande Elbio Porcellis, sentimento esse por nós esportistas levado muito a sério, como diz o ditado, não gostamos de perder nem em "par ou impar". Meu querido, não deixa uma coisa dessas mudar teu conceito de caráter, ou conceito de professor, conceitos esses que só outra pessoa tem, que já foi citada acima e que sabes quem é. Bom depois do desabafo sincero e enraivecido, um grande abraço do teu amigo, ALUNO, irmão Paulinho.
Rafael Barbosa disse…
sem comentários meu amigão, ou melhor, irmaozão!
Tu teve lá e sabe o q significa pra nós aquilo.
Grande abraço!!!

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