Pular para o conteúdo principal

Pimenta do Élbio - 12/10/10


Por Élbio Porcellis

Uns mais iguais

A Constituição brasileira afirma que todos são iguais perante a lei. Nosso dia-a-dia, entretanto, se encarrega de desmentir tal falácia.

Em 2007, um agricultor de 70 anos, no interior de Morro Redondo, ao defender a família de três criminosos que haviam invadido sua residência, na zona rural, e estavam agredindo, covardemente, sua esposa, pegou um revólver e atirou contra os bandidos, ferindo um deles. Foi imediatamente preso.

Semana passada, três jovens faziam arruaça em um ônibus urbano, exibindo um revólver. Quando o coletivo foi parado por policiais avisados por celular de um dos passageiros, um dos jovens arruaceiros, maior de idade, livrou-se do revólver, de numeração raspada, simplesmente largando-o no piso do ônibus.

Foram os três autuados em flagrante, mas após breve depoimento, foram liberados. Estão novamente nas ruas, fazendo exatamente as mesmas coisas.

José Augusto da Silva roubou três pacotes de cigarro em um mercadinho do bairro Areal. Está preso.

Ubirajara Macalão desviou (rico não rouba), em selos o equivalente a alguns milhares de pacotes de cigarro. Está em liberdade.

Daniel Dantas, banqueiro implicado em fraude, suborno, formação de quadrilha, foi preso mas, numa ação velocíssima da justiça, passando por sobre duas instâncias, foi libertado9. Novamente preso, foi libertado ainda mais rapidamente. O STF estava de plantão para não deixar que ficasse preso.

De quebra, o “juiz habeas corpus” afirmou que o Ministério da Justiça não tem competência para opinar sobre o assunto! Típica arrogância: “eu sei tudo, vocês não sabem nada”.

O uso de algemas nos presos ricos é taxado de “humilhação”. Não era “humilhação” quando as algemas foram usadas no velho agricultor que atirou no criminoso que agredia sua esposa. Não era “humilhação” quando o uso foi para o Zé Ninguém que roubou cigarros. Para o inferno com tanta hipocrisia.

Todos são iguais perante a lei, mas uns parecem mais iguais que os outros.

Porque o Juiz do STF ignorou duas instâncias para soltar o criminoso rico? Resposta fácil: “eu posso”.

Benesses? Regalias? Desigualdade perante o Judiciário? Não. Apenas uma questão de relevância: primeiro – com inusitada velocidade – atender os que calçam sapatos de cromo alemão. Depois, quando (e se) houver tempo, os que calçam sandálias de borracha.

Enquanto isso, no tribunal, a estátua da deusa da justiça tem olhos vendados e pés descalços.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme: A Esposa

The Wife EUA 101 min Direção: Elenco: Gleen Close,  Jonathan Pryce, Christian Slater Enquanto viaja para Estocolmo com o marido, que receberá o Prêmio Nobel de Literatura, Joan questiona suas escolhas de vida. Durante os 40 anos de casamento, ela sacrificou seu talento, sonhos e ambições, para apoiar o carismático Joe e sua carreira literária. Assediada por um jornalista ávido por escrever uma escandalosa biografia de Joe, agora Joan enfrentará o maior sacrifício de sua vida e alguns segredos enterrados finalmente virão à tona. Gosto de filmes que começam de um modo e aos poucos vão se revelando e mudando as expectativas iniciais da trama. Este é um deles.  Um roteiro cheio de sutilezas, bem dirigido e potencializado por ótimas atuações, em especial, claro, da Gleen Close. Olivia Colman foi bem em A Favorita, mas nem perto do desempenho da protagonista deste filme aqui. Tanto as palavras quanto os silêncios dela dizem tudo. Performance sensacional, mesmo. ...

Filme: Larry Crowne - O Amor Está de Volta

Larry Crowne EUA, 2011 - 98 min Comédia / Romance Direção: Tom Hanks Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Bryan Cranston, George Takei, Cedric 'The Entertainer' Quando dois, nem digo super, mas sim, mega-astros se unem para estrelar um filme, o senso comum diz que ele deve ser no mínimo, interessante. Hã... não. Larry Crowne não é bom, não. A trama é a seguinte: depois de ser demitido, o amável Larry Crowne volta para a faculdade, onde se apaixona por sua professora casada. Uma historinha mixuruca, Tom Hanks atuando como se fosse Forrest Gump 2 e Julia Roberts no papel mais chato de sua vida. Pelo menos Hanks, mesmo com um roteiro fraco em mãos, mostra uma ótima mão para dirigir em um incrível hiato de 15 anos sem praticar a habilidade em longas (só havia dirigido o ótimo The Wonders do distante 1996). E o grande George Takei (o eterno Sulu de Star Trek) rouba a cena todas as vezes em que surge na tela. Genial. Até dá pra assistir, mas só se não tiver nada, mas bota nada realmen...

Filme: Juntos Pelo Acaso

Life As We Know It EUA, 2010 - 115 min. Comédia/Drama/Romance Direção: Greg Berlanti Elenco: Katherine Heigl, Josh Duhamel, Josh Lucas, Christina Hendricks, Jean Smart Tá ficando muito brabo assistir comédias românticas yankees. É tudo tão padronizado que chega a irritar. Tudo bem que se eu fosse produtor e me dissessem que eu gastaria uns U$ 20 milhões e arrecadaria fácil, o dobro ou mais que isso com um filme que já vem com uma fórmula certeira - casal-principal-não-se-dá-bem-porém-depois-veem-que-são-feitos-um-pro-outro-mas-brigam-a-20-min-do-final-mas-acabam-ficando-juntos , talvez eu gostasse da ideia. Mas sendo espectador, é um saco ver sempre a mesma coisa. Salvo raras exceções como os filmes da Nancy Meyers (sim, sou homem, mas gosto dos filmes dela...) que primam pela esperteza de diálogos e uma maior sensibilidade, ou por outros como A Proposta , que foi extremamente engraçado, a grande maioria da produção deste gênero está sendo muito chato de aguentar. Esse Juntos Pelo Acas...