A edição de hoje do 1, 2, 3... Fight! vai ser de tirar o fôlego para os conhecedores de esporte, e em especial, de voleibol.Vou me atrever a fazer uma comparação entre duas equipes que foram o máximo em suas épocas e dizer com todas as letras qual foi a melhor.
O desafio de hoje, então, é o seguinte: qual equipe foi melhor - a campeã olímpica masculina em Barcelona, 1992, ou a também campeã olímpica, em 2004 em Atenas?
Páreo duríssimo em questão, vamos logo ao que interessa: 1,2,3... Fight!
Em primeiro ponto, vou analisar os sistemas táticos.
Em 92, nós não tínhamos grandes centrais, apenas Paulão. Então o Zé Roberto inventou um sistema onde o Carlão e o Marcelo Negrão se revezavam na segunda posição de meio.Era bem doido, às vezes entrava o Jorge Edson (que embora mais baixo, era da posição) no lugar do Negrão pra ajustar melhor o bloqueio, mas em geral funcionava muito bem.
O de 2004, já contava com o líbero e com uma escalação mais ortodoxa, com cada um na sua posição, sem improvisações.É interessante levar isso em conta na hora de avaliar os jogadores, pois vou comparar alguns que não tinham funções totalmente idênticas, mas sim, as que mais se aproximavam.
Levantador
Maurício x Ricardinho: ambos geniais e marcaram época no esporte mundialmente. Em uma lista dos 10, talvez até dos 5 maiores de todos os tempos, ambos estariam incluídos.
O primeiro com uma distribuição perfeita e precisão absurda. Mas fico com o Ricardinho, pelo arrojo, imprevisibilidade, velocidade até hoje não igualada e pontaria tão boa quanto Maurício. 1992 0x1 2004.
Oposto
Marcelo Negrão x André Nascimento: nome e sobrenome para a posição de desafogo do time.
André Nascimento nunca foi das minhas maiores paixões - acho que ele pega a bola baixo para a posição e só consegue jogar bem com bola na mão (só que como o Ricardinho não errava nunca aqueles tiros impossíveis de chegar bloqueio duplo, ele fazia a festa).
Só que o Negrão foi considerado simplesmente o melhor jogador da Olimpíada e por muito tempo, o melhor atacante do mundo. Nenhuma dúvida: Negrão na cabeça. 1992 1x1 2004.
Ponteiro (mais alto)
Tande x Dante: só invertem suas consoantes, mas tinham funções iguais nos seus times: menor área de passe e mais liberdade para o ataque. Mas na verdade, o Dante, embora hoje seja um supercraque, na época era até reserva (de luxo, é verdade) e só jogou porque o Nalbert se lesionou e não ficou 100% para os jogos.
E o Tande era um titular inconteste e fundamental na conquista. Dá Tande. 1992 2x1 2004.
Ponteiro (mais baixo)
Geovane x Giba: ai, ai, ai... Passei toda minha adolescência querendo jogar como o Gigio (que no ano seguinte, seria eleito o MVP da Liga Mundial), sim, eu era atacante naquela época...
Só que o Giba - que foi o MVP de Atenas - até por sua representatividade histórica dentro da seleção, tem que ganhar essa. 1992 2x2 2004.
Central (mais alto)
Paulão x Gustavo: Dois gaúchos e dois cracaços da posição. Paulão passava (na época, precisava) e era extremamente técnico e competitivo. Mas sem dúvida, dá Gustavo pela força de ataque, bloqueio e saque, combinação letal do melhor central já visto no Brasil. 1992 2x3 2004.
Central (mais baixo)
Carlão x André Heller: Aqui é a disputa mais complicada. Carlão era um ponteiro que fazia as vezes de central, junto com o Negrão. O André era um central de fato e que, mesmo caso do Dante, era reserva do Rodrigão, que se machucou e chegou à meia-boca nos Jogos.
Mas ele acabou titular e jogou muito na Olimpíada. Mas mesmo enjambrado, tem que dar Carlão, por ser o capitão, liderança técnica, moral e emocional para todos os outros. 1992 3x3 2004.
Times titulares então, acabou em um empate - estou excluindo aqui a figura do Serginho, pois é de analogia impossível de ser realizada.
Vamos a outros fatores que podem nos ajudar a definir o time superior.
Desempenho nos jogos
A seleção de 1992 venceu todos seus 8 jogos, perdendo apenas incríveis 3 sets. Em 2004, o time perdeu um jogo (no qual entrou com um time misto, pois já estava classificada em 1º e não queria "mostrar o jogo" para os EUA), num total de 8 sets perdidos.
Time reserva
De longe, mas de muito longe mesmo, a maior diferencial entre as duas equipes.
Em 92, o time reserva tinha Talmo (levantador comum), Janelson (um ponteiro interessante, mas nada excepcional), 3 centrais mais ou menos, Jorge Edson, o veterano Amauri e o novato Douglas.
O único realmente de alto nível era o Pampa, reserva do Negrão, só que por causa do esquema em que o titular executava função mista, quase nunca entrava.
Já o time reserva de 2004 teria disputado título se fosse outro país. Ou algúem duvida que Maurício, Anderson, Geovane, Nalbert e Rodrigão (fora, o Serginho) não formavam uma superequipe?
Em Atenas, o time invertia o 5x1, trocava ponteiros, entrava o Rodrigão e sempre o time mantinha um padrão altíssimo de jogo, coisa que em Barcelona era impossível (sorte que o time titular sempre dava conta do recado).
Adversários
Mais ou menos semelhante.
O time do Zé Roberto jogou uma 1ª fase um pouco mais tranquila, sendo os adversários mais fortes, Cuba (que acabaria com o bronze), CEI (antiga U.S.S.R.) e a Holanda (que classificou em último, mas depois surpreendeu chegando à final, tirando Itália e Cuba do caminho).
Depois uma semi-final terrível (muito mais difícil que a própria final) contra os bicampeões olímpicos norte-americanos e uma final contra a zebra holandesa.
Já, o time do Bernardinho pegou uma 1ª fase bem complicada com Itália, Rússia, EUA e Holanda na chave. E mesmo assim se classificou em 1º lugar com uma rodada de antecedência.
Depois voltou a pegar EUA e Itália na semi e na final, respectivamente.
Ou seja, nas duas ocasiões, o Brasil pegou o vice e o bronze na chave inicial. Pedreiras nas duas Olimpíadas, com diferenças de dificuldades apenas nos dois jogos finais (92, semi difícil e final mais tranquila e em 2004, o contrário).
Técnicos
Zé Roberto x Bernardinho: feliz do país que tem dois homens tão capacitados para exercer essa mesma função.
Zé tinha e tem uma capacidade de observação absurda da sua equipe, um inovador que consegue sempre montar um esquema tático que aproveite o máximo do seu grupo. E em todas as vezes com um viés voltado para o ataque, qualidade que sempre procurei implantar em minhas equipes e que me apaixona.
Já o Bernardinho é o maluco, o obcecado por treinos e estatísticas, o obsessivo por vitórias, que nunca está satisfeito e sempre quer mais e mais.
Além disso, tem uma leitura de jogo impressionante e consegue sempre mudar partidas adversas com suas trocas, ou de jogadores, ou da tática, quase sempre oportunas.
Sou fã de carteirinha dos dois e ambos tem determinadas qualidades as quais sempre me espelhei descaradamente.
Mas se me colocarem uma arma na cabeça, eu digo que o Bernardinho pelo conjunto da obra, é o melhor.
Conclusão
Depois de muito pensar, chego ao veredicto. Se jogassem uma contra a outra, os times titulares fariam um jogo parelhíssimo, com os técnicos anulando dentro do possível as virtudes do adversário.
Porém, o Bernardinho tinha no seu banco muito mais coelhos para tirar da cartola e conseguiria com trocas de jogadores em momentos-chave fazer a diferença entre as equipes.
Poderia inverter o 5x1 colocando Maurício e Anderson, poderia melhor o passe colocando o Nalbert, aumentar o bloqueio com o Rodrigão, dar mais consistência tática com o Gigio...
Aliás, esse é exatamente o tipo de coisa que o Bernardinho fez, ao longo de toda a 1ª década desse 3º milênio e que o tornaram esse megacampeão e mentor intelectual de um time quase impossível de ser batido.
Por isso, dá Seleção de 2004.
Mas para quem não viu jogar, a de 1992 era fantástica também, tá?
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